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Acervo inédito da arte gráfica brasileira é exposto na Europa
Depois de dois meses em exibição na França, a mostra Brasil em Cartaz será inaugurada no início de abril na Suíça. Idealizada pelo designer Rico Lins, a exposição reúne cerca de 80 cartazes brasileiros, percorrendo uma linha do tempo que vai da década de 1950 até a atualidade. As peças retratam a diversidade de linguagens e técnicas dessa remota área das artes gráficas.
“Seja marginal, seja herói” é uma das frases que simbolizam a mostra. Ela sintetiza as adversidades enfrentadas pelas artes gráficas no Brasil, mas, por outro lado, assinala a existência de profissionais e anônimos que a elas se dedicam quase devotamente. “O cartaz brasileiro é o retrato de uma utopia: não tem lugar na sociedade, nem financeiramente, nem sobre os muros. Mas é através dessa marginalização que ele encontra sua força e, acima de qualquer outra expressão gráfica, o espaço para a experimentação”, relata Rico Lins.
O designer idealizou a mostra como possível exposição integrada ao Ano do Brasil na França e, em meados de 2005, foi convidado a apresentar seu projeto para os organizadores do Festival Internacional do Cartaz, em Chaumont. O evento francês, criado em 1990, é um dos mais prestigiados do setor mundialmente.
Teve início, então, a pesquisa histórica e o trabalho de seleção das peças a serem expostas em Chaumont. Aos poucos, contudo, o enfoque mudou, passando dos cartazes mais remotos, como os sanitaristas, políticos e publicitários do final do século 19, para os modernos e contemporâneos, concebidos a partir dos anos 1950. Com o apoio de instituições como a Associação dos Designers Gráficos (ADG), Lins convocou designers de todo o Brasil a inscreverem cartazes originais, que tivessem servido de fato como suporte visual à realização algum evento.
Em escasso intervalo de tempo - a abertura da mostra francesa ocorreu em dezembro de 2005 - foram recebidas mais de 500 inscrições, o que revelou uma até então desconhecida escala de atuação no Brasil. “A marginalização de que falamos anteriormente nos possibilitou a reunião de um inédito e qualificado acervo de cartazes nacionais”, conclui o designer.
Além de peças-chaves, como a vencedora do concurso para o cartaz da 1ª Bienal de Artes de São Paulo, concebida por Antônio Maluf; de séries anuais de peças institucionais, a exemplo daquelas criadas para o Prêmio Museu da Casa Brasileira; e de prestigiados cartazes de festivais de música e cinema, a mostra revelou belos exemplares contemporâneos.
“O critério de seleção foi o nosso olhar”, brinca Lins. O que se buscava era a reunião de acervo qualificado, pela relevância gráfica, histórica ou cultural, e ainda representativo das três vertentes técnicas e de linguagem próprias à concepção de cartazes no Brasil. São elas a tipografia, a serigrafia e o offset.
As duas primeiras têm confecção quase artesanal, diferenciando-se, contudo, pela sofisticação de elementos e pelo uso de cores. “A tipografia é o famoso lambe-lambe, cartazes que manipulam apenas letras, números e outros caracteres, que tradicionalmente informavam sobre apresentações artísticas e musicais”, relata o designer. Desde meados de 2005, a prática está proibida em algumas cidades brasileiras.
Mas na Fundação Brasilea, na Suíça, como em Chaumont, o lambe-lambe terá papel de destaque. Esses cartazes serão expostos em uma espécie de varal, uma alusão ao cenário informal de que são originários, diferenciando-se da mostra dos exemplares coloridos.
Já os cartazes em serigrafia e offset apresentam o estado-da-arte do universo gráfico brasileiro. Com sua diversidade de estilo e escalas de produção, eles reúnem peças que ora enfatizam a fotografia, a ilustração, a tipografia, ora expressam as ferramentas digitais de concepção.
Texto resumido a partir de reportagem
de Evelise Grunow
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 314 Abrll de 2006
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