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Ao
longo de sua trajetória acadêmica, que tem importantes trabalhos
desenvolvidos junto a instituições científicas ligadas às questões da
construção, sustentabilidade e análise de impacto ambiental de
edificações, Vanessa Gomes participou de inúmeros congressos mundiais.
Entre eles, fez parte dos comitês regional e científico da Sustainable
Building 2005, em Tóquio, e da Conference on Sustainable Building
South-East Asia, na Malásia, também em 2005. Integra ainda o conselho
deliberativo do recém-criado Conselho Brasileiro de Construção
Sustentável (CBCS), sediado em São Paulo. Nesta entrevista, a arquiteta
aborda questões como a responsabilidade dos projetos de arquitetura
para o correto desempenho energético e ambiental dos edifícios, as
diferenças entre sistemas de certificação e de formulação de
declarações de desempenho, assim como a particularidade brasileira
diante de programas elitistas de construção sustentável europeus e
norte-americanos. |
| Arquiteta
formada pela Universidade Federal do Espírito Santo em 1993, Vanessa
Gomes cursou mestrado e doutorado em engenharia civil na Escola
Politécnica da USP, concluídos em 1998 e 2003, respectivamente, e é
professora na Unicamp |
| Ao
longo de sua trajetória acadêmica, que tem importantes trabalhos
desenvolvidos junto a instituições científicas ligadas às questões da
construção, sustentabilidade e análise de impacto ambiental de
edificações, Vanessa Gomes participou de inúmeros congressos mundiais.
Entre eles, fez parte dos comitês regional e científico da Sustainable
Building 2005, em Tóquio, e da Conference on Sustainable Building
South-East Asia, na Malásia, também em 2005. Integra ainda o conselho
deliberativo do recém-criado Conselho Brasileiro de Construção
Sustentável (CBCS), sediado em São Paulo. Nesta entrevista, a arquiteta
aborda questões como a responsabilidade dos projetos de arquitetura
para o correto desempenho energético e ambiental dos edifícios, as
diferenças entre sistemas de certificação e de formulação de
declarações de desempenho, assim como a particularidade brasileira
diante de programas elitistas de construção sustentável europeus e
norte-americanos. |
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| Há quanto tempo a senhora se dedica à questão da sustentabilidade? |
Quando
me formei, desenvolvia projetos arquitetônicos de alto padrão para
clientes corporativos. Meu envolvimento com a sustentabilidade começou
quando fiz o mestrado na Politécnica da USP, participando de projeto
ligado ao reaproveitamento de resíduos da siderurgia. Era a responsável
por estabelecer diretrizes para painéis de fachada que utilizassem
matriz sem cimento. Tratava-se, na época, de analisar o comportamento
do material em termos de conforto térmico, acústico, durabilidade e
assim por diante. Quando entrei no doutorado, em 1999, meu objetivo era
ampliar esse conceito para abordar especificamente a avaliação do
desempenho ambiental do edifício.
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| Que critérios de sustentabilidade aprendeu nesse momento inicial? |
Deve-se
começar a pensar na sustentabilidade ambiental já na etapa de
pré-projeto. Nessa fase, o importante é a implantação, para privilegiar
a escolha de terrenos já inseridos no tecido urbano, minimizando
problemas de extensão da infra-estrutura, e evitar áreas com potencial
de uso coletivo. Também se deve levar em conta a recuperação de áreas
degradadas. Uma vez trabalhado o pré-projeto, cerca de 90% do êxito da
sustentabilidade passa à mão dos projetistas.
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| De que forma? |
Principalmente
com relação a energia, o melhor desempenho está ligado a orientação,
forma e massa do edifício. Todas as regiões do país demandam cuidados
relativos à entrada de radiação solar, pelas implicações diretas na
carga térmica da edificação e, assim, no dimensionamento do sistema de
ar condicionado e na especificação de vidros, por exemplo. Em alguns
lugares os edifícios podem ser mais pesados, com divisórias de
alvenaria em vez de sistemas leves, para haver absorção de calor ao
longo do dia e devolução gradual ao meio externo durante a noite. Esse
raciocínio é válido para escritórios, por exemplo, mas não para
residências, que têm utilização noturna. Também se deve verificar se as
aberturas e os vidros das fachadas são compatíveis com a orientação do
prédio. Esse conjunto de elementos, aliado à especificação dos
materiais do envelope da edificação, corresponde a cerca de 30% da
probabilidade de redução da carga térmica. É muito, principalmente se
comparado aos 19% obtidos pelos bem-sucedidos programas brasileiros de
redução de energia. Deve-se considerar, finalmente, a especificação de
materiais, em que se estuda não só a energia acumulada durante o uso,
mas também aquela eventualmente absorvida em sua produção.
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| Qual a porcentagem de projetos arquitetônicos que começam errado, sob essa perspectiva? |
No Brasil, os erros iniciais são verificados em 99% dos projetos.
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| Mas essas questões básicas não são ensinadas nas escolas de arquitetura? |
Exatamente,
e isso incomoda muito a nós, professores, porque todas escolas ensinam
esses conceitos. Existem vários fatores que interagem nesse sentido,
como o próprio mercado imobiliário, que relaciona alto padrão à
predominância de vidro.
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| Como se comportam as edificações brasileiras em termos ambientais? |
A
questão da ventilação é a menos grave no Brasil, porque tendemos a ter
edifícios laminares. É uma diretriz de projeto mais próxima da européia
e que nos dá grande potencial para utilizar a ventilação e a iluminação
naturais. Isso é muito importante, já que cerca de 40% do consumo dos
escritórios está ligado ao condicionamento do ar, mas é evidente que há
regiões em que é impossível prescindir do ar-condicionado. O centro da
questão, contudo, é não impedir que se faça uso da ventilação natural.
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| A falta de energia, então, tornaria as edificações inabitáveis? |
Trata-se
de uma situação extrema, é claro, mas é para se pensar. A iluminação
demanda 40% da energia consumida pelo edifício, o ar-condicionado
outros 40%. Então, dependendo das tipologias, é desses sistemas que se
pode extrair maior economia. Desde 2002, após o apagão, a curva de
consumo energético dos edifícios residenciais voltou a subir, porque a
temperatura ambiente está esquentando, o poder aquisitivo das pessoas
está aumentando e vendem-se, conseqüentemente, mais aparelhos de ar
condicionado. Já as residências unifamiliares têm comportamento um
pouco diverso, porque nelas o arquiteto ainda tem maior liberdade. Nos
edifícios verticais, por exemplo, a maior fachada em geral está voltada
para a pior orientação.
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| A orientação solar é o elemento mais importante para o bom desempenho energético? |
Sim,
e na nossa latitude ainda temos alguma incidência solar até na fachada
sul. Se não for observada a orientação do edifício, portanto, joga-se
fora 30% de chance de minimizar seu consumo energético.
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| Houve, historicamente, um momento de regressão da arquitetura nesse sentido? |
Não
sei se é correto falar sobre um momento ou um intervalo histórico, já
que a arquitetura modernista de São Paulo tem exemplos muito bons de
soluções de interação com o entorno. Todos falam sobre o estilo
internacional, mas a realidade é que ele propiciou a existência de
edifícios muito parecidos em climas totalmente diferentes. Isso é
trágico em termos de sustentabilidade, exceto nos primeiros projetos
modernistas, em que foram desenvolvidos o brise-soleil e os pilotis -
estes, com o tempo, se transformaram em garagens, enquanto os brises
deixaram de ser dimensionados corretamente.
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| Deve-se
começar a pensar em sustentabilidade ambiental já na etapa de
pré-projeto. Nessa fase, o importante é a implantação. Uma vez
trabalhado o pré-projeto, cerca de 90% do êxito da sustentabilidade
passa às mãos dos projetistas |
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| É aí que entra o mercado imobiliário? |
Sim,
o direcionamento dado à arquitetura pelo mercado imobiliário passou a
influir diretamente nos projetos. Os grandes edifícios, sobretudo os
corporativos, tiveram que corresponder a determinada imagem e, o que é
lamentável, tal demanda adquiriu importância maior do que a relação da
construção com o entorno. Ao mesmo tempo, o inglês Willis Haviland
Carrier, que inventou o ar-condicionado em 1902 para proteger papéis em
gráfica, teve a idéia de estendê-lo ao uso ambiental. O ar-condicionado
passou a resolver problemas que a arquitetura tradicionalmente tinha
que solucionar sozinha. Surgiram distorções evidentes, como nas escolas
de engenharia mecânica, que formam os projetistas de ar condicionado.
Em vários países esses profissionais são remunerados pela tonelagem de
refrigeração projetada, conceito que não induz à elaboração de um
projeto mais eficiente.
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| O que acontece com a sustentabilidade em meio a tais questões econômicas? |
A
qualidade do ambiente interno é um dos pontos-chaves da arquitetura, e
é com ela que o mercado imobiliário de todo o mundo está acostumado a
lidar, porque nela está o maior potencial de retorno rápido.
Considera-se inviável um empreendimento que não tiver retorno entre
três e cinco anos, mas a sustentabilidade é uma idéia de longo prazo.
Os painéis fotovoltaicos, por exemplo, têm payback de 25 anos.
Portanto, se os empresários continuarem a adotar a seleção de
alternativas unicamente baseada na viabilidade em curto prazo, nunca
serão incorporados os conflitos anteriormente apontados. Isso acontece
não só no Brasil, mas em todo o mundo. Existem, contudo, bairros
inteiros na Alemanha e na Holanda recobertos por superfícies
fotovoltaicas, algo que só aconteceu porque houve subsídio do governo.
Se não houver algum tipo de subsídio no Brasil, ficaremos sempre em
algumas iniciativas isoladas.
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| Na
área de construções especulativas, a construtora considera seu trabalho
finalizado na entrega das chaves, ou seja, quem vai pagar a conta de
operação será o usuário final. O problema ambiental é resolvido, então,
na película dos vidros, por exemplo |
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| Mas o Brasil tem grande potencial para utilizar a tecnologia fotovoltaica. |
Sim,
o potencial solar brasileiro é fantástico, mesmo nas latitudes mais
baixas, como Santa Catarina e Rio Grande do Sul. A idéia é boa, embora
eu não ache que torná-la obrigatória seja a solução, porque demora um
tempo para que todos consigam se ajustar a novos sistemas.
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| Como os países que já adotaram algum tipo de regulamentação energética analisam o desempenho dos projetos arquitetônicos? |
No
Canadá, por exemplo, as municipalidades aceitam a simulação de tal
desempenho já como parte da documentação necessária à concessão do
alvará de construção. No Brasil, apenas parcialmente algo foi
implantado nesse sentido, através do código de obras de Salvador, de
Brasília e, menos ainda, em Minas Gerais.
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| A sustentabilidade é compatível com áreas densamente urbanizadas? |
Teoricamente
sim, ou seja, é desejável valer-se da infra-estrutura existente caso
ela tenha ainda potencial de utilização. Quando a rede já está
esgotada, contudo, é preferível ocupar
os vazios. Nesse sentido,
atualmente apenas 1% da construção na Europa se refere a novos
edifícios. No Brasil, esse valor deve ser da ordem de 70%. Muitas vezes
nem sabemos se há real demanda para tantas novas construções. Em São
Paulo, na avenida Paulista, muitos conjuntos ficam vazios porque, em
decorrência da arquitetura de vidro, sai caro bancar as contas de
ar-condicionado e iluminação artificial.
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| O raciocínio imediatista, portanto, é um dos cernes do problema de sustentabilidade das construções? |
Esse
é um conceito-chave para a sustentabilidade, mas com o qual o mercado
não está habituado a lidar. Na área de construções especulativas, por
exemplo, a construtora ou o empreendedor considera seu trabalho
finalizado no momento da entrega das chaves, ou seja, quem vai pagar a
conta de operação será o usuário final. Há um livro muito interessante,
chamado Capitalismo natural, de Paul Hawkens, Amory Lovins e Hunter
Lovins, no qual se fala que os investidores imobiliários consideram a
curva dos investimentos x tempo de retorno até o momento em que o custo
sobe tanto que o negócio deixa de ser viável. O problema ambiental é
resolvido, então, na película dos vidros, por exemplo. Mas se naquela
curva forem incorporadas soluções de projeto, ocorre tamanha redução no
dimensionamento do condicionamento do ar que o empreendimento torna-se
até mais lucrativo.
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| A tipologia comercial é uma das vilãs, sob a ótica do consumo energético? |
Essa
história de vilão é engraçada porque, em relação a outras atividades
econômicas, a indústria da construção civil é de saída uma vilã. É
conhecida como o setor dos 40%: consome 40% dos materiais, 40% da
energia, contribui com 40% das emissões poluentes, representa 40% do
mercado. De forma análoga, internamente à construção, o setor
corporativo é também o grande vilão. Em seguida vem o setor
residencial. Nessa tipologia, em especial, os erros normalmente
decorrem de má orientação: se girássemos os edifícios alguns poucos
graus teríamos muitas vezes cerca de 22% de redução do consumo
energético ao longo do tempo.
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| Em quanto o tempo o Conselho Brasileiro de Construção Sustentável poderá se tornar referência sobre esses temas? |
É
urgente que isso aconteça até o próximo ano. Não podemos nos dar ao
luxo de esperar mais, porque os impactos da construção estão sendo
colecionados e potencializados rapidamente. Estamos trabalhando no CBCS
em documentos e diretrizes para orientar toda a cadeia da construção,
desde os projetistas, construtoras e empreendedores até os usuários.
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| Quais as orientações básicas para cada um desses setores? |
Para
os projetistas e arquitetos, são questões de projeto, de orientação
solar, entre outras; para os empreendedores, principalmente as
relacionadas à seleção de área e à projeção do edifício no terreno. É
necessário que se deixe alguma possibilidade de ventilação. Os projetos
atuais abandonaram a ventilação cruzada, o que me choca muito. Deve-se
prever também a instalação futura de sistemas como o fotovoltaico. As
diretrizes para o construtor estão relacionadas à implantação do
canteiro. A obra incomoda não só em termos de ruído, mas também de
poluição, sujeira, tráfego de caminhões etc. Consideramos também os
desafios da informalidade, da produtividade e do aproveitamento de
resíduos dentro do próprio canteiro.
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| E em relação aos usuários? |
Os
usuários já lidam com alternativas de consumo racional de água, por
exemplo, mas é necessário que tenham grande familiaridade com a
tecnologia para que os desperdícios não sejam ainda maiores do que nos
sistemas convencionais. Por outro lado, têm que saber identificar se
algo não está funcionando como deveria, ou seja, é necessário criar a
cultura de monitoramento. A compra de um imóvel deveria ser similar à
de uma geladeira ou automóvel: a partir de um manual e de índices de
desempenho, escolhe-se o melhor.
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| A criação de um selo de sustentabilidade entraria como elemento de orientação nessas escolhas? |
O
CBCS pretende orientar a definição de metodologias mais abrangentes de
avaliação, já que a questão dos selos pode trazer contribuição positiva
apenas se pensada em itens específicos. Por exemplo, a ABNT Associação
Brasileira de Normas Técnicas] e o Inmetro [Instituto Nacional de
Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial] estão elaborando o
selo ambiental brasileiro, enfocando produtos isoladamente. Existem
também as classificações ambientais, em que se julga como o edifício
atende determinadas referências, que podem até estar atreladas a um
tipo de certificação. Há ainda as declarações de desempenho, como o
Sbtool [software que mede a performance de edifícios], uma ferramenta
que costumo comparar às tabelas de alimentos que encontramos nos
mercados. Esse tipo de sistema atrelado à construção faria o usuário
estar atento aos consumos esperados de energia, de água, comparáveis à
bases estabelecidas por declarações de desempenho.
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| Como são formuladas tais declarações? |
Parte-se,
normalmente, da agenda ambiental de um país. Com ela, determinado
setor, como o da construção, seleciona o que for mais importante e
vital à sua lógica interna e parte para a formulação de uma agenda de
sustentabilidade. Nela, estarão listadas prioridades e critérios, que
devem ser compreensíveis e palatáveis para os agentes do mercado a que
pertence. No CBCS, estamos elaborando uma metodologia para a tipologia
residencial.
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| De que forma está sendo encaminhada essa metodologia? |
O
que nos diferencia dos sistemas de certificação existentes é que eles
miram os edifícios de alto padrão, que representam 25% do mercado. Não
podemos esquecer os outros 75%, constituídos por habitações de
interesse social e escolas públicas, entre outros. Além disso, em
média, 60% da construção brasileira é informal, o que a torna imune a
qualquer lei, mesmo aos incentivos para atendimento voluntário de
determinados requisitos. Estamos procurando estratégias para lidar com
esse expressivo setor informal e isso não passa necessariamente por
legislações ou sistemas de certificação. Por fim, também se deve dar
especial atenção às obras públicas, que são assunto do governo.
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| Como anda a interface da agenda ambiental brasileira com os indicativos de sustentabilidade para a construção? |
Vou
citar outro exemplo. Alguns anos após a [conferência mundial sobre meio
ambiente] Rio 92, a Inglaterra elaborou sua Agenda 21. Passados dois
anos, o país já tinha sua agenda da construção civil, ao que se seguiu
a definição dos indicadores de sustentabilidade para construtoras. No
Brasil também foi feito estudo nesse sentido, ou seja, o país tem sua
Agenda 21. Em 2001 integrei um grupo da Politécnica que começou a
trabalhar no contexto de preparação para uma agenda brasileira do setor
da construção e o próximo passo seria traçarmos os indicadores para os
edifícios, construtoras etc. Dentro do CBCS, contudo, temos clara a
noção de que construção sustentável não é aquela que termina custando o
que custar. Isso pode ser realidade para a Suíça, mas aqui temos que
considerar também critérios econômicos e sociais. Trabalhamos com
outras agendas, além da ambiental.
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| O
CBCS não será certificadora, não dará selo para ninguém. Também não
somos uma ONG acadêmica, queremos contar com a participação forte do
mercado para que nossas propostas possam ser absorvidas em curto, médio
e longo prazos |
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| Qual é a função prioritária do CBCS? |
O
CBCS não será uma certificadora, não dará selo para ninguém. O que
pretendemos é funcionar como um pára-raios. Existem conhecimentos
fragmentados e queremos concentrá-los em um espaço integrado de
consultas. Estamos formando comitês técnicos, grupos de trabalho, para
avaliar a aplicabilidade e o estado de conhecimento de temas
específicos, como a mudança climática. Não se fala mais em combater o
aquecimento global, e sim em reduzi-lo, porque ele já é uma realidade.
Mas mesmo que façamos rapidamente tudo o que estiver ao nosso alcance,
ainda precisaremos de uns 150 anos para desfrutar dos efeitos
positivos. Enquanto isso, teremos que lidar com mais chuva, mais
ventos, que se tornarão mais freqüentes e fortes. Será que os edifícios
e as cidades vão tolerar tais condições? O fato é que sabemos muito
pouco a respeito. Então, os especialistas que formam os comitês
técnicos do CBCS devem permear transversalmente todos os grupos para
disseminar e integrar os conhecimentos. Por outro lado, não somos uma
ONG acadêmica, queremos contar com a participação forte do mercado para
que tais idéias possam ser absorvidas e transferidas para aplicação em
curto, médio e longo prazos.
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Por Evelise Grunow
Publicada originalmente em PROJETODESIGN veja no seucontexo original:
http://www.arcoweb.com.br/entrevista/entrevista104.asp
Edição 332 Outubro de 2007
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