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A versatilidade dos sistemas visuais no setor cultural.
Com liberdade de aplicação dos elementos estruturais - a tipografia, ou lettering, e o símbolo -, a concepção de marcas e sistemas de identidade visual na área artística e de entretenimento revela, atualmente, a tendência a composições desmembráveis, com múltiplas representações em utilizações variadas. Esse é um aspecto comum aos trabalhos de três promissores escritórios brasileiros de design: o mineiro Hardy Design, o pernambucano Mooz e o paulista Estúdio Mol.
A mineira Mariana Hardy comanda o escritório que leva seu nome há cinco anos. Responsável por projetos que transitam entre o desenho gráfico, para a web e ambiental, como aqueles dedicados à sinalização (leia PROJETO DESIGN 302, abril de 2005), ela esteve à frente dos trabalhos desenvolvidos em 2005 para o Fórum Internacional de Dança (FID), em Belo Horizonte, e para as empresas de produção cultural Malab e Artivisão, sediadas na mesma cidade.
Desde a criação do FID, em 1993, sua programação tornou-se cada vez mais abrangente, somando às apresentações de espetáculos a realização de workshops, oficinas e debates sobre a dança e temas correlatos. Em 2005, o escritório Hardy Design enfatizou o conceito “O corpo pensa”, característico do evento. Assim, o foco do sistema visual desenvolvido pelos designers mineiros foi a complexa ilustração de um esqueleto humano, delineado por frases e palavras.
A essa estrutura tipográfica foram agregados coloridos órgãos e elementos do sistema circulatório, em desenho que faz referência ao nome Território Minas, o programa viabilizador das parcerias entre o FID e artistas mineiros. O território, nas ilustrações de Mariana, são paralelos visuais entre equipamentos urbanos e órgãos humanos, entre avenidas e artérias do corpo, relações ricamente ilustradas através de intenso colorido e desenho rebuscado.
Criou-se, portanto, um sistema de forte identidade visual, de forma a proporcionar o desmembramento das partes do esqueleto em diversas peças de comunicação do evento. Como exemplo, os cartazes veiculavam parte do tronco e o crânio, os folhetos incluíam as pernas e outros itens mostravam apenas um braço estendido.
Nos projetos desenvolvidos para a Malab e para a organização não-governamental Artivisão, a fonte de inspiração foi a idéia de movimento, de articulação - habilidades, segundo Mariana, indispensáveis aos profissionais da área de produção cultural. O ícone da Artivisão faz referência direta aos móbiles do artista norte-americano Alexander Calder (1898-1976) e ao conceito de deslocamento a eles relacionado, enquanto o símbolo da Malab apresenta a imagem de um polvo. São, assim, os diferenciais de agilidade, olhar aguçado e sensibilidade que estão em discussão na identidade dessa marca.
O polvo da Malab identifica a iminência de movimento, o que se comprova nas variações de aplicação do ícone. Os itens de papelaria apresentam versões com tentáculos totalmente estendidos e outras em que eles estão direcionados à direita ou à esquerda. A linguagem informal e despojada é enfatizada também pelo
lettering, em que são utilizadas apenas letras minúsculas.
Nos projetos do escritório Mooz e do Estúdio Mol, é a tipografia que empresta versatilidade e jovialidade às marcas. A identidade da banda recifense de rock Mula Manca & A Triste Figura, criada pelos designers Eduardo Rocha, Daniel Edmundson e Gustavo Gusmão, do Mooz, esteve entre os selecionados para a edição 2006 da Bienal da Associação dos Designers Gráficos. O desenho do tipo que constitui o nome representa, com a sofisticação de suas serifas, ornamentos e elementos de ligação entre caracteres, o universo literário a que estão vinculadas as músicas do grupo.
Já nos recentes projetos do Estúdio Mol, dos designers Chico Zullo, Rodrigo Pipponzi e Galileo Giglio, a identidade visual resulta da fusão entre tipografia e símbolo. É o caso, por exemplo, do projeto desenvolvido para a Televisión América Latina (TAL), canal pago de tevê dedicado à música e ao entretenimento, a partir de concurso internacional vencido pelo escritório paulistano.
Sobre o sistema de representações da tipografia, Giglio explica: “O círculo da letra A é o ponto em comum para toda a América Latina e faz menção à receptividade do olho. Também a cultura urbana foi fonte de inspiração, assinalada pela linguagem de estêncil”.
Texto resumido a partir de reportagem
de Evelise Grunow
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 317 Julho de 2006
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